sinopse
Constantino é a história de um livro esquecido. Um livro que começou a ser escrito em 1880, por um jovem professor, Daud Constantino Al-Khoury, um dos únicos professores cristãos a ensinar na cidade de Homs do século XIX, numa Síria que vivia há 4 séculos sob dominação otomana. Um livro que viajou em manuscritos para o Brasil em 1924, junto com o professor e sua família, que imigravam para começar uma nova vida em São Paulo.
Com a morte de seu autor em 1939, os manuscritos foram descobertos por acaso em São Paulo por um diplomata e pesquisador literário sírio em 1964 . O livro com as obras completas do professor era finalmente publicado na Síria. 500 páginas em árabe clássico, com algumas das primeiras peças de teatro encenadas em solo sírio, além de inúmeros poemas e crônicas.
A história do livro se perdeu no Brasil, e, quase meio século depois, no dia 11 de setembro de 2001, Otavio Cury, um bisneto brasileiro de Daud Constantino Al-Khoury, chegava a Damasco para uma viagem de turismo. Sobre seu bisavô, sabia apenas que ele havia sido um professor. Na única noite que passou em Homs, o acaso lhe levou até o livro.
Otavio volta ao Brasil com o livro e, em 2007, começa a traduzir a obra. A história de seu bisavô começa a vir a tona. A participação no movimento de resistência contra o domínio turco; a ligação com Abu Khalil Al-Qabbani, considerado o pai do teatro árabe; o pioneirismo no jornalismo, na direção do Jornal Homs.
Em 2009, com a tradução da obra em mãos, Otavio viaja para a Síria para procurar a memória viva de Daud Constantino Al-Khoury. O guia de viagem agora é a poesia e a história de seu bisavô.
olhar do diretor
Sou neto de imigrantes árabes, sírios e libaneses, nascido e criado na cidade de São Paulo. Sempre me achei brasileiro. O Oriente, pra mim, ficava do outro lado.
Nos dias seguintes ao atentado de 11 de setembro, os mundos ocidental e oriental pareciam se separar e se estranhar. Foi justamente quando eu estava na cidade síria de Homs pela primeira vez e recebi nas mãos as 500 páginas de uma herança árabe da qual nunca ouvira falar. Eram as obras completas de meu bisavô - poeta e um dos pioneiros do teatro árabe.
Eu ainda não trabalhava com cinema e o livro ficou guardado na minha estante por seis anos. Era uma curiosidade que eu mostrava aos amigos.
Meu primeiro documentário como diretor, Cosmópolis (2005), fala da identidade da cidade de São Paulo. Entre os personagens, há um sírio com uma divertida loja de tecidos no bairro do Bom Retiro. Seu pai veio da mesma Homs. Era apenas uma coincidência.
O documentarista trabalha com a busca, a procura por uma realidade particular. CONSTANTINO saiu dessa simples equação: o que estava escrito ali, era, além da obra de poesia e teatro de um antepassado, minha própria história. Traduzir as 500 páginas era investigar o meu passado.
O livro, de curiosidade, virou desafio. Voltar à Síria com a tradução das obras de meu bisavô como guia de viagem.
Acho que fazer esse documentário é como escrever um posfácio para um livro que nunca li. E de um autor que nunca tinha ouvido falar a respeito. Isso me pareceu uma aventura suficientemente interessante para poder ligar a câmera e começar a procurar.
Hoje, anos depois de começar a tradução, continuo me achando brasileiro. Mas talvez hoje eu não saiba dizer o que faz de alguém oriental ou ocidental.
Otavio Cury
Otavio Cury
Otavio Cury nasceu em São Paulo em 1971. Formou-se em Agronomia pela USP em 1994.
Seu primeiro trabalho como diretor foi o documentário Cosmópolis (55 min / 2005), exibido pelos canais Cultura, Futura e GNT, selecionado para os principais festivais de cinema do Brasil e exibido na Tate Modern em Londres durante a Mostra Global Cities (2008).
Foi sócio da Mutante Filmes de 2003 a 2006. Em 2008 fundou a Outros Filmes.